LEIA NOSSOS ARTIGOS ATUALIZADOS

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A ALIANÇA DE BATISTAS DO BRASIL: Breve histórico de sua gênese e de sua proposta*

Pr. Wellington Santos
Presidente da Aliança de Batistas do Brasil – 2008-2010
A Aliança de Batistas do Brasil surge no Nordeste, em meio à nossa participação nos principais fóruns de reflexão teológica da região (MEP – Movimento Evangélico Progressista, FTL – Fraternidade Teológica Latino Americana, etc.). Nesse contexto, uma das questões que sempre nos incomodava tinha relação com o fato de que muitos palestrantes nesses encontros, após declararem sua ligação histórica junto aos batistas, confessassem que para continuarem a produzir teologia necessitaram deixar de ser batistas. Muitos desses testemunhos tinham relação com a expulsão desses teólogos de seminários e igrejas batistas, alguns dos quais são hoje teólogos luteranos, episcopais, metodistas, etc.
No ano de 2005, quando o pastor Raimundo César Barreto Jr. retornou de uma de suas viagens dos Estados Unidos, ele se aplicou a conhecer alguns movimentos que estavam ocorrendo nas cidades de Salvador, Maceió e Olinda, e a partir disso nos desafiava a formar uma rede articulada, a fim estimular a troca de experiências e de forças, além de suscitar em todos os implicados o alento de saber que aquilo que cada um fazia em nível local tinha ligações e similaridades com experiências de outros lugares. A verdade é que começávamos a perceber que em diferentes contextos existiam vozes inquietas, desejosas de algo mais que nunca se efetivava. A via institucional/tradicional sempre se mostrou avessa a esse tipo de projeto. Quase nunca esse caminho está aberto à democratização e à flexibilidade.
Tudo isso nos conduziu, há cinco atrás, para a construção de uma Carta de Princípios, elencando elementos básicos de nossa tradição, começando por uma tentativa de resgate de nossos próprios princípios batistas. Tornou-se comum ouvirmos, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, pastores e líderes batistas defenderem a idéia de que o grande problema dos batistas está em seus princípios de autonomia e de liberdade de consciência. Tornou-se comum nesses ambientes a idéia da criação de mecanismos que cerceassem cada vez mais esses princípios considerados mais prejudiciais que benéficos. Isso nos preocupava muito, uma vez que o que possuímos de mais peculiar, essencial e fundamental como tradição religiosa, são justamente a autonomia e a liberdade de consciência.
Preocupava-nos o fato de que se essas questões básicas estavam sendo ameaças, o que seria de outras questões mais importantes. Estávamos interessados em questões do tipo:
Ø  Como suscitar e promover o diálogo entre irmãos cristãos no país, isto é, como lidar com o desafio do ecumenismo?
Ø  Como trataríamos das questões ligadas à democratização fundiária e à cidadania como um todo?
Ø  Como trataríamos questões tão prementes como a fome e a desigualdade social?  
Ø  Como colaborar no enfrentamento do racismo e da intolerância?
Nossa tradição batista tem sido marcada pela negligência na discussão desses temas. A idéia da formação da Aliança de Batistas do Brasil se ancora, primeiramente, num resgate radical dos princípios batistas, atrelada a alguns itens que talvez sejam novos para alguns, mas que certamente representam a luta que alguns já enfrentam em suas comunidades, em sua docência teológica, etc. Infelizmente, por outro lado, as discussões teológicas mais vigentes em nossas igrejas e seminários estão muito aquém de responderem com pertinência aos questionamentos mais importantes e urgentes de nossa sociedade.
Atrelados à questão dos princípios batistas, do desafio ecumênico, da consolidação de um ministério pastoral que incluísse homens e mulheres, e outros desafios similares, nós entendemos que era necessário dar um passo a mais. Este passo consistiu justamente na criação da Aliança de Batistas do Brasil.
Essa organização se propõe apenas a ser um ambiente onde cristãos batistas são convidados a pensar teologicamente de maneira livre, e onde se possa construir uma agenda propositiva para a sociedade brasileira e para as próprias igrejas. Está longe de seus propósitos a formação de uma nova denominação, uma vez que seu próprio estatuto propõe a presença de cristãos batistas e não-batistas (desde que se identifiquem com os princípios batistas). Outro detalhe interessante é que gostaríamos de congregar cristãos batistas de todas as vertentes: pentecostais, tradicionais, reformados, etc.
Uma de nossas intenções centrais é promover a discussão teológica. Além disso, nossa intenção é mostrar que outra prática eclesiástica é possível sem o peso da pecha de heresia, ou sem a ameaça da exclusão e da perseguição. Temos muitos amigos que foram calados e execrados em seminários teológicos. Para sobreviverem, esses amigos tiveram que, de forma lamentável, deixar o aprisco batista. Somem-se a isso os inúmeros casos de ex-cristãos que hoje militam nas universidades do país, e que rejeitam veementemente a identidade de protestantes e batistas, porque cansaram de acreditar que era possível pensar livremente a sua fé.
Em linhas gerais, a Aliança de Batistas do Brasil se propõe a ser esse espaço de oxigenação reflexiva e de provocação da própria igreja. No entanto, acima de tudo, ela propõe dar forma a uma resposta para a sociedade maior. Desejamos agregar pessoas que estejam fazendo teologia e pensando a igreja de forma séria, ainda que suas vozes estejam sendo castradas nos ambientes denominacionais onde vivem. 
Oxalá essa pequena semente chamada Aliança de Batistas do Brasil seja um grande espaço que congregue irmãos e irmãs, com seus estilos mais diferentes, para que possamos ter uma proposta concreta para a sociedade brasileira. Como batistas no Brasil, caminhamos para os 150 anos de existência, e nossos problemas domésticos se aprofundam, enquanto os problemas essenciais do país ficam sem uma resposta de nossa parte.
Eu concluiria essa ligeira apresentação da Aliança de Batistas do Brasil com uma paráfrase do nordestino e “poeta do forró” Petrúcio Amorim:
Boi com sede bebe lama / Barriga seca não dá sono
Eu não sou dono do mundo / Mas tenho culpa porque sou filho do dono   
Talvez essa seja uma das razões para o surgimento da Aliança de Batistas do Brasil. Cansamos de fugir da responsabilidade pelo que aí está. Cansamos de discutir questões periféricas. Cansamos de atacar aquilo com que o povo brasileiro não está minimamente preocupado. Cansamos de caminhar sempre à margem, marcados pela arrogância e pela prepotência. Entendemos que é preciso mostrar a face para acertar e errar, caminhando com o povo. O povo não consegue dormir, pois a violência campeia nas grandes cidades. No Nordeste brasileiro a mortalidade e a prostituição infantil continuam galopantes. As drogas assolam a juventude. A homofobia e o racismo estão disfarçados em nossos cultos.
Meu desejo é que, em meio a isso tudo, a Aliança de Batistas do Brasil, enquanto órgão representante de nossa tradição, possa apresentar nos próximos anos algo novo à nossa sociedade.  
* Esse texto é a versão escrita da fala apresentada pelo autor na abertura do Fórum Protestantismo e Teologia Pública: Um diálogo com as éticas sociais de Martim Luther King Jr. e Richard Shaull, no dia 24 de maio de 2007, na cidade do Rio de Janeiro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário